O Pipoqueiro está de mudança!

por Marcelo Seabra

Caríssimos leitores de O Pipoqueiro,

A partir de agora, as críticas que vocês felizmente acompanham por aqui passarão a ser divulgadas em um endereço diferente. Buscando alcançar um público cada vez mais amplo e uma estrutura mais sólida, migramos o blog para o Uai, “O Grande Portal dos Mineiros”. Claro que queremos continuar contando com o prestígio de todos – basta atualizar o endereço, que agora é:

http://blogs.uai.com.br/opipoqueiro/

Dessa forma, você já cai direto lá! Entrando pela página inicial do portal também funciona, tornando o acesso mais fácil. E O Pipoqueiro segue no mesmo espírito, publicando textos de brilhantes colaboradores sobre Cinema, TV e o que mais for relacionado – e interessante! E todo o histórico segue disponível para consulta, desde o início, em 2011.

Agradecemos a companhia de vocês, já esperando continuar contando com ela no novo ambiente. O espaço para comentários continua funcionando e aberto à participação de todos. Fiquem à vontade! Esperamos que gostem!

Abraços!

O Pipoqueiro

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Memórias Secretas nos leva ao terror do Holocausto

por Marcelo Seabra

Remember posterZev Guttman é um velhinho aparentemente inofensivo que guarda um trauma enorme: ter tido a família assassinada em Auschwitz. Depois de muitos anos, ele tem a oportunidade de vingá-los, indo atrás do igualmente octogenário responsável pelas execuções. Memórias Secretas (Remember, 2015) representa, além de outra grande interpretação de Christopher Plummer, uma volta do diretor Atom Egoyam à boa forma após algumas bolas fora. Outros grandes nomes no elenco ajudam a manter o resultado acima da média, mesmo que muito possam torcer o pescoço para a conclusão.

Com roteiro do estreante Benjamin August, que já engatou um segundo projeto em produção, Egoyam (de Sem Evidências, 2013) voltou sua atenção para um sobrevivente do holocausto em busca de vingança. O alemão Zev (Plummer, de Não Olhe Para Trás, 2015) conhece no asilo um compatriota com o mesmo histórico, Max (Martin Landau, de Frankenweenie, 2012), e eles traçam um plano para encontrar e eliminar o líder do bloco onde foram prisioneiros. O inconveniente é que existem, na América do Norte, quatro pessoas com nome, nacionalidade e idade idênticos, o que torna a busca mais longa. Zev deixa o amigo inválido no asilo e foge atrás das pistas que dispõe, sempre se orientando pela carta escrita por Max. O detalhe: Zev está sofrendo de um tipo de demência que ataca sua memória e precisa ser lembrado, por exemplo, que sua esposa faleceu.

A busca do protagonista o faz encontrar personagens interessantes e passar por situações inesperadas. E Egoyam tem a oportunidade de contar com atores como Dean Norris (de Breaking Bad), Jürgen Prochnow (de Hitman: Agente 47, 2015), Henry Czerny (de Revenge) e Bruno Ganz, muito lembrado como o próprio Hitler de A Queda (2004). Com essa turma, um roteiro bem polido e uma fotografia bonita, cortesia do parceiro habitual Paul Sarossy, o diretor consegue um resultado melhor que nos últimos filmes lançados. E é bom lembrar ainda da trilha marcante do também colaborador frequente Mychael Danna, que traz um quê de Hitchcock em alguns momentos.

Os amigos planejam a caça ao nazista

Os amigos planejam a caça ao nazista

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Kate Winslet costura uma vingança

por Marcelo Seabra

The Dressmaker banner

Para este filme ficar acima da média, bastou uma grande atriz como protagonista. A Vingança Está na Moda (The Dressmaker, 2015) se beneficia muito do talento e da beleza de Kate Winslet, que se vira bem com uma personagem que deveria ser interessante, mas é mal concebida e nunca revela a que veio. É no elenco, que ainda conta com a ótima Judy Davis, que o filme se apoia, já que o roteiro parece amarrado por linhas muito finas que não aguentam a pressão.

No início da história, já percebemos que tudo depende de esquecimentos e situações muito convenientes, essenciais para que a trama seja possível. Tilly Dunnage (Winslet, da franquia Divergente) há muito não voltava à pequena Dungatar, no outback australiano, e surpreende a todos com seu retorno. Deixando a alta costura parisiense, ela se propõe a cuidar da mãe doente (Davis, de Para Roma, Com Amor, 2012) e fazer vestidos para as garotas e senhoras locais. Por trás dessa atitude aparentemente altruísta, há um óbvio ressentimento esperando para se tornar vingança.

The Dressmaker KW

Uma mistura de asco e medo é percebida na população do vilarejo quando se trata das duas Dunnage. A mais nova é acusada de assassina e a mais velha é tida como louca. Poucos se dispõem a ajudar e a conviver com elas, caso do bom moço Teddy (Liam Hemsworth, da franquia Jogos Vorazes) e do policial Farrat (Hugo Weaving, de A Viagem, 2012). A maior parte da população é formada por homens machistas e grosseirões e mulheres vazias e interesseiras. Tilly não se encaixa nesse perfil e não se sujeita, mas tem uma certa necessidade de aceitação por baixo da postura de durona.

O que a garota pretende, no entanto, nunca fica claro. Fatos vão sendo revelados e entendemos melhor o quadro, mas não parece haver nada planejado. As coisas simplesmente acontecem e seguem um rumo, muito diferente do que esperamos de uma pessoa magoada que a qualquer momento vai explodir. Tilly é caça e caçadora e começa a ficar difícil identificar a diferença. Winslet defende as atitudes da personagem, e podemos até comprar algumas delas, mas o quadro geral é bem falho. Davis, como a mãe idosa e rebelde, segue na mesma trilha, extremamente competente em sua arte, mas necessita de verdade.

A diretora Jocelyn Moorhouse tem um longo histórico de misturas bem equilibradas entre drama e comédia (A Prova, 1991, e Colcha de Retalhos, 1995), e o marido, PJ Hogan, é sempre lembrado como o diretor de O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997) e O Casamento de Muriel (1994), novo clássico do Cinema australiano. Moorhouse dirige um roteiro escrito pelo casal, baseado no livro de Rosalie Ham, e novamente prestigia sua terra natal, o que é admirável. As paisagens são benefício extra. Mas as várias versões do roteiro e o tempo que o projeto levou para sair do papel devem ter causado-lhe danos. O tom é indefinido, indo de um extremo a outro, e o resultado é irregular.

Hugo Weaving é outro que está muito bem

Hugo Weaving é outro que está muito bem

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Apocalipse fecha a segunda trilogia dos mutantes em alto nível

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

X Men Apocalypse

Antes de começar a falar de X-Men: Apocalipse (2016) em si, é bom termos em mente o seguinte: por mais que os executivos da Fox e o próprio diretor/produtor Bryan Singer digam que sim, a trilogia iniciada em 2011 com X-Men: Primeira Classe, continuada com X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014) e encerrada com esse X-Men: Apocalipse não se trata de uma prequel, já que há imensas disparidades cronológicas e mesmo problemas de continuidade que tornam a ligação entre ela e os três primeiros filmes dos mutantes (X-Men, X-Men 2 e X-Men: O Confronto Final) impossível. Também não se trata necessariamente de um reboot, já que as trilogias divergem bastante entre si. Poderíamos dizer, então, que a nova trilogia de X-Men é simplesmente um derivado da primeira, novas histórias contadas em um mesmo universo, com personagens compartilhados, mas não na mesma continuidade ou linha temporal. É necessário ter isso em mente para desconsiderar diversos aspectos presentes aqui que, como dito acima, contrastam violentamente com o que se viu na primeira trilogia dos mutantes que, em tese, seria a sequência dessas três primeiras aventuras.

X-Men: Apocalipse se inicia 3.600 anos antes da Era Comum (ou Antes de Cristo, como queira), num Egito dominado por En Sabah Nur (Oscar Isaac, de Guerra Nas Estrelas: O Despertar da Força, 2015), o primeiro mutante, considerado por muitos como um deus. En Sabah Nur tem a capacidade de, quando em idade avançada, trocar de corpos, geralmente mutantes, dos quais incorpora os poderes, de forma que é quase um imortal. Quando o filme começa, ele está prestes a transportar sua essência para um mutante com poderes regenerativos, o que o tornaria ainda mais longevo. Nem todos os egípcios, no entanto, louvam o mutante e, em um ato desesperado, alguns rebeldes interrompem a cerimônia, literalmente derrubando uma pirâmide em cima dele. Graças a seus aliados – todos mutantes – no entanto, o ritual é completo, mas En Sabah Nur acaba ficando preso sob milhares de toneladas de escombros, ileso, mas em uma espécie de animação suspensa.

X Men Apocalypse Horsemen

Avançamos no tempo e estamos em 1983. Há dez anos, os mutantes foram revelados ao mundo e, apesar de conviverem de maneira mais ou menos pacífica com a humanidade, nem todos estão satisfeitos com seus papéis. Mística (Jennifer Lawrence), um ícone mutante, é agora uma mercenária que resgata mutantes de situações difíceis e os ajuda a se recolocar no mundo. É numa dessas missões que somos apresentados a Anjo (Ben Hardy), Noturno (Kodi Smit-Mcphe, de Planeta dos Macacos: O Confronto, 2014) e Psylocke (Olivia Munn, de Mortdecai: A Arte da Trapaça, 2015), personagens que desempenharão papéis importantes no filme. Pouco depois, acompanhamos a agente da CIA Moira MacTaggert (Rose Byrne), em uma missão no Egito. Moira está atrás de um culto que reverencia En Sabah Nur e acaba inadvertidamente presenciando o ressurgimento do mutante que, não demora muito, se vê no caminho de Ororo Munroe (Alexandra Shipp, de Straight Outta Compton, 2014), que se tornaria sua primeira aliada.

Paralelamente, também sabemos do destino de Magneto (Michael Fassbender), agora um operário na Polônia, casado, pai e tentando esquecer seu passado, e de Charles Xavier (James McAvoy), que reassumiu seu papel de professor na Escola Xavier para Superdotados, contando com a ajuda do sempre fiel Hank McCoy (Nicholas Hoult). A escola está cheia de adolescentes mutantes, dentre os quais se destacam Jean Grey (Sophie Turner, a Sansa de Game of Thrones) e o recém-chegado Scott Summers (Tye Sheridan, de Lugares Escuros, 2015). Não demorará muito para que os caminhos de todos esses personagens se cruzem, com alguns embarcando na jornada de conquista de En Sabah Nur e outros preferindo combatê-lo.

X Men Apocalypse X

X-Men: Apocalipse não foge à regra dos demais filmes de heróis aos quais estamos acostumados. É um filme de ação que, dessa vez, não segue a tradição dos X-Men de comparar os mutantes às minorias oprimidas, ainda que haja resquícios disso aqui e ali. É notável a forma como Simon Kinberg e Bryan Singer decidiram se livrar das amarras da continuidade compartilhada com sua primeira trilogia para criar uma história que, sim, depende bastante dos filmes anteriores, mas não se preocupa em ligar-se com os cronologicamente posteriores. Mesmo aqueles que não assistiram a Primeira Classe ou Dias de um Futuro Esquecido conseguem acompanhar a história aqui contada sem ficar perdido. O que não deixa de ser um ponto positivo.

Com relação aos personagens e aos atores em si, se, por um lado, pode-se reclamar do fato da Psylocke de Munn ter sido pouco aproveitada, por outro, Singer e Isaac acertaram em cheio na caracterização do vilão. Apesar do visual pouco satisfatório, Apocalipse é um ser megalomaníaco, exagerado e propenso a discursos, ou seja, um típico vilão de histórias em quadrinhos com planos de conquista mundial. Isaac conseguiu transmitir exatamente isso em sua performance que, muitas vezes, flerta com o exagero, algo que combina bem com o personagem. Já McAvoy, Fassbender, Lawrence, Byrne e Hoult reprisam seus papéis de maneira competente. Outro que merece destaque é Evan Peters, reprisando seu papel de Mercúrio (ainda que não use esse nome durante a película) de maneira bastante divertida. É impressionante como Bryan Singer soube explorar o uso dos poderes do personagem – a supervelocidade – de uma forma original que sempre torna as aparições do jovem velocista algo esperado e um dos destaques da nova trilogia (produtores da série The Flash: aprendam).

X-Men: Apocalipse é um típico produto de Singer e Kinberg. É recheado de ação, com efeitos especiais e CGI bem feitos e, por incrível que pareça, um 3D que funciona. Como todos os filmes dos X-Men até aqui, tem seus furos de roteiro e algumas situações clichê e soluções preguiçosas. No entanto, aqui – como em toda a trilogia – os acertos superam os erros e X-Men: Apocalipse fecha essa segunda trilogia dos mutantes da Fox com dignidade. E, também, como em todo filme de super-herói da atualidade, especialmente aqueles com heróis Marvel, aguarde uma participação de Stan Lee e uma cena pós-créditos, que é um fan service que, esperamos, não seja gratuita.

McKellen Stewart

Dessa vez, os veteranos ficaram de fora

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Fraude jornalística é lembrada no Cinema

por Marcelo Seabra – texto escrito em 2004

Shattered Glass banner

Os escândalos dentro da mídia começaram bem antes do caso Jayson Blair, do jornal The New York Times. Estreou nos Estados Unidos no dia 14 de novembro o filme Shattered Glass (algo como “Vidro Estilhaçado”, mas também um trocadilho com o nome do protagonista, referindo-se à sua desgraça). O longa retrata um episódio real revelado em 1998: o jornalista Stephen Glass, que trabalhava para a respeitada revista The New Republic e colaborava ocasionalmente com várias outras, como a Rolling Stone, ficou popular pela qualidade de seus artigos, sendo disputados por diversos veículos da mídia. Até o dia em que seu segredo foi descoberto: o próprio Glass inventava boa parte de seus textos. O elenco é encabeçado por Hayden Christensen, que vive o protagonista. O ator é mais lembrado por interpretar Anakin Skywalker, ou Darth Vader, dos novos episódios da série Star Wars.

O personagem real retratado em Shattered Glass, Stephen Glass, conversou com a agência Associated Press e comentou o que achou do filme, além de revelar o que o teria levado a escrever matérias falsas e como está sua vida hoje. Segundo Glass, esse é o seu filme de terror pessoal. Apesar de elogiar as atuações, ele lembra que era difícil acompanhar certas partes, chegando a olhar para o chão: “Foi muito doloroso e difícil de assistir. Era um passeio pela pior parte da minha vida, que eu mais me sinto envergonhado. E pela qual me arrependo. Apesar disso, é um bom filme”, julga.

Shattered Glass scene

Ele não teve nenhuma ligação com a equipe da produção. O diretor e roteirista, Billy Ray (que escreveu A Guerra de Hart), acha que manter contato poderia deixá-lo confuso, atrapalhar seu dicernimento. Ele afirma que decidiu comandar o projeto para honrar a profissão dos responsáveis pela queda do ex-presidente americano Richard Nixon, Bob Woodward e Carl Bernstein, então jornalistas do Washington Post. E seu filme está sendo comparado exatamente a Todos os Homens do Presidente, que retrata a investigação da dupla: “Os dois melhores sobre o jornalismo americano”, classifica a Associação Científica Cristã.

Glass aponta como falha no roteiro o fato de não se explicar o que o levou a forjar as notícias. Hoje, com acompanhamento psiquiátrico, ele reconhece: “Eu me detestava. Não me achava bom como jornalista, como filho, como irmão, como amigo, como namorado. Acho que enganei as pessoas para elas pensarem boas coisas de mim”, revela. “Queria histórias que não aconteciam com freqüência, sobre fatos grandiosos. Então, eu inventava tudo. E para cada mentira, era necessário outra para sustentá-la. Assim, era uma sobre a outra”, completa.

Para voltar a viver sua vida, ele, hoje com 31 anos, tem escrito cartas de desculpas a quem enganou. Tem muito apoio da família, de amigos, da namorada, dos quatro gatos, do cachorro… Graduado em Direito, ele trabalha em seu segundo livro. Shattered Glass, ainda sem previsão de estréia no Brasil, deve receber o título O Preço de uma Verdade. É provável que nem chegue aos cinemas, tamanha a demora na distribuição.

O verdadeiro Glass, de preto, e seu intérprete

O verdadeiro Glass, de preto, e seu intérprete

 

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Cinebio de Brian Wilson chega à TV

por Marcelo Seabra

Love and Mercy

Temos os ótimos John Cusack e Paul Dano como o protagonista em épocas diferentes. Temos um gênio da música internacional e sua história com forte apelo dramático. E ainda há a trilha sonora recheada de clássicos de uma banda bastante premiada e admirada. É de se assustar com o fato de Love & Mercy (2014) ter demorado tanto a chegar ao Brasil. E direto na TV a cabo. E o que é pior: com o pavoroso título The Beach Boys: Uma História de Sucesso, que mais engana que explica.

Brian Wilson era o vocalista e fundador do Beach Boys, sim, mas o filme não é sobre a banda. Apesar de ser lembrado como o compositor daquelas canções pueris, grudentas e agradáveis, que falavam de surfe, garotas e carros, Wilson tinha duas questões que o faziam mais interessante do que podíamos supor: uma criatividade aparentemente inesgotável para compor e produzir e uma personalidade abalada por uma doença mental que se manifestou através de ataques de pânico, crises de depressão e vozes que só ele escutava. Tido como brilhante já na época e elogiado por figuras como Paul McCartney, ele lutava contra seus demônios internos para dar conta de seguir criando. O fato de ter feito muita coisa sozinho, enquanto a banda seguia em turnês, também não ajudava. Quando os colegas voltavam, tinham muita dificuldade de entender que caminho era aquele novo, que estava se distanciando muito do que vinham fazendo até então.

Love and Mercy cast

A época do lançamento de obras primas como o disco Pet Sounds e do single campeão Good Vibrations foi também o momento quando Wilson teve noção de que sua sanidade estava se esvaindo. Distanciando-se dos familiares, até porque ninguém gostaria de ter um pai como aquele, ele acaba se envolvendo com um psiquiatra que à primeira vista estava devotando a vida à sua cura. No papel do doutor Eugene Landy, Paul Giamatti vai mais longe que o que vimos em Straight Outta Compton (2015). De empresário com jogadas suspeitas naquele filme, ele se tornou aqui um médico abusivo que mantinha seu paciente dopado e dependente, gostando e mantendo a condição de babá de um rockstar milionário.

Enquanto Paul Dano (de Ruby Sparks, 2012) domina o cenário nos anos 60, mostrando Wilson na criação de alguns de seus maiores sucessos e na descoberta de sua doença, Cusack (de Toque de Mestre, 2013) o apresenta na década de 80, após um período claramente complicado de um colapso nervoso. Os atores não se parecem e a diferença de idade nem é tão grande, mas são ambos bem sucedidos em suas missões, em retratos diferentes de uma vida conturbada. Elizabeth Banks (de Magic Mike XXL, 2015) completa o elenco principal, como a mulher que seria fundamental para que Brian saísse de seu marasmo. O elenco de apoio é também muito competente, retratando os outros Wilsons, dentro e fora da banda, os demais membros do grupo e todos que passaram pelo caminho de Brian, como os músicos de estúdio que o ajudaram na realização do icônico Pet Sounds.

As cenas que envolvem artistas em suas atividades, que dependem de talento para simular o ato, costumam ser um ponto fraco desse tipo de filme. Mas, a exemplo de outras cinebiografias recentes de cantores e músicos, ninguém faz feio. A maior parte das aparições junto a um instrumento cabe a Dano, a versão mais jovem, e como ele o resto do elenco também é bem habilidoso. Bill Pohlad, experiente produtor, faz aqui sua segunda incursão na direção e demonstra ter um bom domínio da função. As idas e vindas cronológicas não confundem, mesmo que ele não se preocupe em ficar explicando as coisas, o que demonstra confiança na capacidade dos espectadores. O roteiro de Oren Moverman (de O Mensageiro, 2009) e Michael A. Lerner (de A Guerra de Agosto, 2012) consegue passar pelos momentos mais importantes da vida de Wilson sem parecer episódico, nunca ficando cansativo e sem ter um livro em que se basear.

O verdadeiro Wilson posa com o elenco jovem

O verdadeiro Wilson posa com o elenco jovem

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Lucifer é mais DC Comics na TV

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Lucifer banner

Em exibição na TV norte-americana desde janeiro, o piloto da série Lucifer é mais uma adaptação dos quadrinhos da DC Comics cujo episódio inicial caiu “acidentalmente” na internet meses antes de seu lançamento. As aspas utilizadas em “acidentalmente” se justificam pelo fato de ser muito estranho que esse seja o quarto piloto de uma série baseada em quadrinhos que é vazado na Internet em menos de um ano. Anteriormente, os episódios-piloto de The Flash, Constantine e Supergirl também vazaram bem antes de suas estreias, o que talvez seja parte de uma nova estratégia da TV americana (especialmente dos canais abertos) de determinar a recepção de um espectro mais amplo do público ao seu produto e, se necessário, fazer ajustes para torná-lo mais aceitável antes da temporada efetivamente começar.

Criada por Tom Kapinos (de Californication), a série é baseada livremente nos conceitos estabelecidos por Neil Gaiman, que criou Lucifer Morningstar para ser coadjuvante em Sandman, e Mike Carey, que escreveu a série do personagem por todas as suas 75 edições. E, apesar do que o título possa dar a entender, não se trata de uma série sobre um demônio tentando arrebatar almas e levar os humanos a cometerem pecados que os levem a passar a eternidade no Inferno. Pelo contrário, esse Lucifer é um cara charmoso, um empresário bem-sucedido, com um pesado sotaque inglês e que tem o talento de fazer com que as pessoas lhe revelem seus maiores segredos. E ele utiliza-se dessa habilidade para combater o crime, ainda que de maneiras tortuosas.

Aqui cabe uma contextualização rápida: durante o arco de Sandman Estação das Brumas, Lucifer decide abandonar o Inferno. Ele expulsa todas as almas condenadas e demônios do local, fecha os portões do Inferno e entrega as chaves para Sonho, dos Eternos. Daí, resolve se estabelecer como dono de um piano-bar chamado Lux, em Los Angeles.

Lucifer duo

O episódio piloto de Lúcifer (Tom Ellis, de séries como Once Upon a Time, The Strain e Dr. Who) começa quando uma cantora pop cuja carreira foi impulsionada graças à sua influência sofre um atentado, sendo morta a tiros. Ele é pego no fogo cruzado, mas, como é imortal – algo que repete sem pudores ao longo de todo o episódio – não só consegue sobreviver como interrogar o atirador antes que ele passe desta pra pior. Quando a polícia aparece, liderada pela detetive Chloe Dancer (Lauren German, de O Albergue 2), Lucifer insiste em fazer parte da investigação. Isso obviamente lhe é negado. Ao longo do episódio, no entanto, ele prova ser de grande utilidade para Chloe que, graças à sua ajuda, consegue fechar a investigação. Paralelamente, através do anjo Amenadiel (D.B. Woodside, de séries como Suits e 24 Horas), vemos os efeitos que a presença de Lucifer na Terra tem causado tanto no inferno quanto no próprio planeta e como isso pode acabar desencadeando uma guerra tendo a humanidade no fogo cruzado.

Se o piloto de Lucifer dá o tom da série, o que veremos em sua primeira temporada será algo relativamente clichê, com Lucifer e a detetive Dancer se unindo a cada semana para solucionar casos, enquanto a questão da possível guerra para que o novo comandante do Inferno seja definido ocorre paralelamente. O principal atrativo aqui, portanto, é justamente o protagonista. Tom Ellis é um Lucifer charmoso, fanfarrão e que se leva muito pouco a sério, lembrando muito as características que John Glover deu ao seu diabo na subestimada série Brimstone, do fim dos anos 1990, tornando-o um personagem bastante divertido e fácil de simpatizar. Isso, no entanto, não o impede de mostrar seu lado demoníaco quando necessário. E é essa abordagem de Tom Ellis ao Estrela-da-Manhã que faz com que Lucifer seja uma série que vale à pena conferir. Mesmo com a primeira temporada já finalizada lá fora, ainda não há previsão para exibição por aqui.

Lucifer DC

Nos quadrinhos, Lucifer está mais para David Bowie

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Coens reverenciam a Hollywood clássica

por Marcelo Seabra

Hail Caesar banner

É interessante acompanhar a variedade de trabalhos dos irmãos Coen. Nos mais diversos gêneros, Joel e Ethan geralmente dirigem, escrevem, produzem e até editam, o que confere a seus filmes uma identidade bem marcante. A novidade assinada por eles atende por Ave, César (Hail, Caesar, 2016), uma homenagem à Hollywood dos anos 50, época em que o mundo passava pela Guerra Fria, que seguiu a destruição da Segunda Guerra, e precisava de diversão escapista. Ou ao menos assim pensavam os executivos dos estúdios, que produziam bobagens cativantes e repetitivas, diversas delas para cada obra prima que sobrevive até hoje.

Com um executivo de estúdio servindo como fio condutor, os irmãos Coen passeiam por cenários majestosos e visitam quatro tipos de filmes característicos do período: o de tema bíblico, o faroeste, o musical com números de dança e o aquático, com nado sincronizado e uma bela sereia. Todos têm uma grande estrela capitaneando o elenco, que no caso são vividas por George Clooney (de Tomorrowland, 2015), Alden Ehrenreich (Blue Jasmine, 2013), Channing Tatum (Os Oito Odiados, 2015) e Scarlett Johansson (de Capitão América: Guerra Civil, 2016), respectivamente. Os quatro encarnam o espírito da época muito bem, caricatos em cena e dando um pouco de profundidade para os estereótipos que conhecíamos apenas do lado de cá da tela.

Hail Caesar Clooney Brolin

É bem divertido acompanhar a trama louca, com comunistas sequestradores, e os dramas dos bastidores, como a vedete grávida e sem marido – um escândalo naqueles dias – e o ator de um personagem só com um sotaque medonho. Há vários ecos de obras consagradas, de Quo Vadis (1951) a Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952), e vemos genéricos de Um Dia em Nova York (On the Town, 1949), entre vários outros. E as histórias por trás das câmeras, como a de um galã que teria dormido com um diretor por uma oportunidade, tornam as coisas mais picantes. E enriquecem o time de coadjuvantes do longa, que inclui Ralph Fiennes (Spectre, 2015), Tilda Swinton (O Grande Hotel Budapeste, 2014), Frances McDormand (Olive Kitteridge, 2014), Jonah Hill (Anjos da Lei 2, 2014) e Clancy Brown (Demolidor), e a lista é grande.

Vivendo o protagonista, Eddie Mannix, Josh Brolin (Sicario, 2015) mais uma vez mostra que não tem medo de brincar com clichês. Ele é o cara durão que lamenta não passar mais tempo com os filhos e está sempre na igreja se confessando. Ele é temido pelos artistas, mas fuma escondido para a esposa não achar ruim. Na Capitol Pictures, ele é o sujeito que “arruma” as coisas, possibilitando às produções manter prazos e evitar prejuízos nas várias filmagens simultâneas. E é quem dá as notícias ao chefão, que nem lá fica. Em meio a tanta ficção, é interessante notar que Mannix é um sujeito real, tendo de fato crescido no mundo do Cinema até virar um figurão. Provavelmente por ser mostrado de forma positiva, ele seja o único com o nome mantido, mesmo que ele não fosse bonzinho como o retratado. Em Hollywoodland – Bastidores da Fama (2006), Mannix, interpretado por Bob Hoskins (de Branca de Neve e o Caçador, 2012), está ligado ao assassinato do ator George Reeves e de sua esposa, Toni Mannix, que formavam um suposto casal adúltero.

Misturando realidade e ficção e fazendo até auto-referência, já que Capitol Pictures é o mesmo estúdio de Barton Fink (1991), os Coen conseguem novamente fazer uma bela obra e, de quebra, um tributo à indústria à qual pertencem. Pode ser mais pueril ou inocente que trabalhos mais densos da dupla, como Fargo (1996), O Homem Que Não Estava Lá (2001) ou Inside Llewyn Davis (2013), mas ainda é um “irmãos Coen”. O que já significa muito, e mais do que a maioria.

Hail Caesar Tatum

Tatum e seus marujos dançantes são uma grata surpresa

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Guerra Civil traz o melhor da Marvel

por Marcelo Seabra

Captain America Civil War banner

Depois de apresentados nos últimos anos, um por um, os personagens muito amados da Marvel se encontraram nos dois filmes dos Vingadores. Mas é agora, em Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, 2016), que essa reunião realmente traz alguma emoção para o público. Com ação, humor e suspense, os irmãos Russo conseguem a proeza de desenvolver diversos personagens e separá-los em dois lados, e cada postura é perfeitamente compreensível. O caminho para se chegar ao quebra pau visto nos trailers é bem interessante e comprova mais uma vez que os estúdios Marvel sabem exatamente o que fazem.

Depois de dirigirem a segunda aventura do Capitão América, Anthony e Joe Russo se mostraram uma opção tão acertada que voltaram para mais um, e não devem sair tão cedo desse universo. Começando com uma estrutura parecida com a do anterior, em meio a uma missão que vai ter consequências, eles logo expandem o quadro, criando uma situação ainda mais intrincada e jogando mais gente na mistura. O Pantera Negra, rei e guerreiro de um povo recluso, é um dos que aparecem pela primeira vez, e Chadwick Boseman (de James Brown, 2014) não faz feio. Ele tem a nobreza necessária e a equilibra com um ar sombrio, ameaçador. Mas a atenção vai toda, claro, para o amigo da vizinhança, nosso escalador de paredes favorito. Na sua versão mais jovem no Cinema, o Homem-Aranha mostrado também é provavelmente o mais fiel aos quadrinhos, falando compulsivamente e demonstrando claramente suas inseguranças. Tom Holland mostrou o talento que tem para o drama com O Impossível (Lo Imposible, 2012), sua estreia, e agora entra de cabeça num papel bem diferente.

Captain America Civil War teams

No meio de tantos personagens, o Capitão América justifica estar no título do longa. Toda a trama gira em torno dele e é a sua posição que detona o conflito. A dupla Stephen McFeely e Christopher Markus, que acompanha o herói desde sua primeira história solo, é muito habilidosa ao amarrar todas as pontas e ao justificar tantas presenças de forma tão natural. E a grande dose de humor, a maior até agora, não se deve às piadinhas infames de Tony Stark, mas a observações engraçadas que surgem a todo momento. Paul Rudd, novamente como o Homem-Formiga, é um dos principais responsáveis. E o equilíbrio é muito saudável, mantendo a seriedade da obra sem o peso e a sisudez de um, por exemplo, Batman Vs Superman (2016). E, por mais que se goste dos personagens da D.C., é preciso reconhecer que as editoras estão muito distantes uma da outra no que diz respeito às adaptações.

Steve Rogers (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.), de amigos vingadores, se tornam antagonistas quanto ao tema político proposto. Baseado no arco de Mark Millar nos quadrinhos, o roteiro muda muita coisa e simplifica outras tantas, o que não significa extrair valor ou diminuir. Outro que ganha destaque é o Bucky Barnes de Sebastian Stan, que está no centro da trama e aumenta sua carga dramática. William Hurt, depois de tanto tempo, volta a viver o General Ross, de O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, 2008), que é quem traz o problema para a mesa. E a novidade no time dos maus responde por Daniel Brühl (de Rush, 2013), uma figura misteriosa que vai ganhar certo destaque. Dentre nossos conhecidos, quem não aparece acaba sendo citado, caso de Thor e Hulk, tudo razoavelmente justificado. É interessante perceber que, mesmo em lados bem distintos, os laços desenvolvidos pelos personagens se mantêm e eles permanecem amigos, o que mostra ser possível respeitar a opinião do outro – mesmo que o confronto acabe se tornando físico.

Com essa acertada alternância de tons e várias referências ao mundo pop, como Star Wars, Guerra Civil consegue durar quase duas horas e meia, ter duas cenas escondidas ao final e não ser cansativo. Todos os embates têm uma razão de ser e os personagens estão envolvidos emocionalmente, não apenas cumprindo tabela. Diretores como Jon Favreau e Joss Whedon fizeram muito pelo estúdio, mas os Russo e sua equipe conseguiram entregar os melhores filmes desse universo, o que cresce a expectativa pelo próximo Vingadores: Guerra do Infinito.

Black Panther

O Pantera Negra é uma das novidades de Guerra Civil

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Franquia segue sem a Branca de Neve

por Marcelo Seabra

The Huntsman Winters War poster

Desde o início, da narração que não diz coisa com coisa e não acrescenta nada, já imaginamos que O Caçador e a Rainha do Gelo (The Huntsman: Winter’s War, 2016) não conseguirá alçar um grande voo. A Universal vem tentando com afinco estabelecer uma nova franquia, mas a tarefa se mostra mais complicada que o esperado. Se o primeiro filme, Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman, 2012), já não era grande coisa, porque insistir em uma continuação? Ainda mais mudando o foco e enfatizando quem antes era para ser coadjuvante.

Depois que o romance entre Kristen Stewart e Rupert Sanders se tornou público e causou certo desconforto, a ideia inicial do estúdio, de uma sequência direta para Branca de Neve, foi descartada. A opção, então, foi contar a história do personagem que roubou a cena da garota: o caçador vivido por Chris “Thor” Hemsworth e mostrar como ele chegou naquelas terras. Outra que não podia faltar era a madrasta má de Charlize Theron, possivelmente a principal atração do primeiro filme. Mas outra antagonista era necessária, para evitar ficar muito repetitivo, e chamaram Emily Blunt (de No Limite do Amanhã, 2014) para interpretar Freya, a rainha irmã da Ravenna de Theron.

The Huntsman Winters War queens

Supostamente de uma linhagem de pessoas dotadas de poderes, as irmãs vivem juntas e Freya é boazinha e normal. Depois de uma tragédia, ela se torna um ser frio nos dois sentidos: ela descobre seus poderes de congelar tudo e passa a eliminar qualquer sinal de amor em seu reino. Crianças tiradas sabe Deus de onde chegam aos montes no vilarejo e são treinadas para se tornarem guerreiras e compor o exército de Freya, que sempre busca ampliar seus domínios à base da força. É aí que descobrimos a origem de Eric, o caçador, uma dessas crianças, e conhecemos outra novidade da trama: Sara, colega de Eric, que chega para reforçar o lado bonzinho. Coube a Jessica Chastain (de A Colina Escarlate, 2015) a missão de ser uma mulher forte e determinada que não ficaria à sombra de Hemsworth.

Com várias reviravoltas mal planejadas, o longa rapidamente se torna cansativo. Parece que tudo o que acontece logo será revisto, haverá algum ajuste e a realidade é alterada. Providências tomadas pelos personagens por vezes não têm explicações lógicas, que nos fazem nos perguntar: “Se ele queria aquilo, por que não foi lá e fez isso ou aquilo?” E um espelho que responde perguntas de beleza mais uma vez é o centro da trama. Ele é cobiçado por vilões, por ser tão poderoso, mesmo que esse poder não fique claro. A exemplo do segundo 300, A Ascensão do Império (300: Rise of an Empire, 2014), a história começa antes e termina depois da anterior, impossibilitando o rótulo de sequência ou pré-continuação.

Com pouco tempo de exibição, O Caçador e a Rainha do Gelo chega a um enfadonho que torna-se difícil controlar o sono. Resta esperar a tal rainha do título começar a cantar Let It Go, mais uma indicação da falta de originalidade da obra. O diretor estreante Cedric Nicolas-Troyan, experiente supervisor de efeitos especiais que trabalhou inclusive em Branca de Neve e o Caçador, não consegue fazer uma cena de ação ou luta que não seja confusa. Mal entendemos o que está acontecendo, quem fez o que. Aí, aparece um anão engraçadinho com uma piadinha, como se isso fizesse tudo ficar bem. Se já estava difícil estabelecer uma franquia a partir da primeira aventura, com esta nada foi facilitado.

The Huntsman Winters War Chastain

Chastain tenta, mas o roteiro não ajuda

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Casal de novela estrela policial nacional

por Marcelo Seabra

Em Nome Da Lei posterUm juiz recém-empossado em uma cidade barra pesada da fronteira chega querendo fazer justiça e arruma confusão com o poderoso local. É uma trama corriqueira, que pode ser um bom passatempo se bem escrita, dirigida e atuada. Algo que vemos com frequência no cinemão americano. A diferença, aqui, é que Em Nome da Lei (2016) é produto nosso, tão competente quanto os de fora. E a comparação serve para o lado bom e o ruim.

Para os detratores do Cinema Nacional, é bom ver que conseguimos fazer igual ou até melhor que o padrão de fora, com tiros, drogas, beijos, lutas e tudo o mais que um filme de ação precisa. Escrita e dirigida por Sérgio Rezende, que volta a tratar de assuntos bem reais e ligados ao crime, como em Salve Geral (2009), a obra é produzida pela Globo Filmes e tem cara de minissérie. Não que isso seja ruim esteticamente, já que as produções televisivas andam cada vez mais bonitas, mas a similaridade fica por conta da previsibilidade, que nos permite sempre saber o que vai acontecer, alternando ações dos dois lados da lei. O juiz ataca, o traficante contra-ataca e assim segue.

Em Nome Da Lei trio

 

No papel principal, como o juiz jovem, obstinado e arrogante, Mateus Solano (de Confia em Mim, 2014) traz um pouco dos trejeitos de um personagem de moral duvidosa que viveu numa novela e parece estar sempre escondendo algo. Nessa mesma novela, sua irmã era vivida por Paolla Oliveira (de Trinta, 2014), que agora é o interesse romântico, a promotora que faz parceria com o juiz. Completa o trio do bem Eduardo Galvão (da série Questão de Família), o menos estereotipado dos heróis, como o chefe da Polícia Federal na região. O papel do vilão fica para Chico Díaz (no ar atualmente em Velho Chico), veterano acostumado a ser malvado e a falar espanhol, e é quem mais parece estar à vontade em cena. O destaque negativo fica para a esposa do sujeito, uma dondoca exagerada no mundo da lua.

Inspirada pela carreira do juiz federal Odilon Oliveira, a trama é extremamente romanceada e poderemos esperar pelos clichês de sempre. O capanga mau tem um caso com a filha do chefe, numa tentativa de dar a ele um pouco de profundidade. Os protagonistas, de cara, demonstram um interesse que sabemos que vai logo desabrochar. O grande vilão é amigo do delegado e tem passe livre. É daí em diante. Alguns momentos de tensão salvam o roteiro de ser um fracasso, mas não é para se esperar muita emoção. Há também cenas com humor, mesmo que meio fora de lugar, proporcionadas por um oficial de justiça inusitado.

O roteiro, que também conta com Rafael Dragaud (de Minha Mãe É uma Peça: O Filme, 2013) e Rodrigo Lages (também de Questão de Família), tenta proporcionar uma discussão ética relacionada a lei, justiça e vigilantismo, mas fica bem rasa. O resultado é um divertimento bem cuidado tecnicamente que poderá ser esquecido assim que a última casquinha de milho sair dos dentes.

Chico Diaz

O vilão, mesmo raso, rouba a cena na pele de Díaz

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The Last Kingdom adapta obra de cultuado escritor inglês

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

The Last Kingdom banner

The Last Kingdom estreou na Inglaterra e nos Estados Unidos via BBC e BBC America em 10 de outubro e tem tudo para agradar a fãs de Vikings e, em menor proporção, de Game of Thrones, ainda que guarde mais semelhanças com a primeira do que com a segunda. A estreia será no History Channel no dia 8 de maio, às 21h. A segunda temporada, já confirmada pela BBC, será veiculada em 2017, ainda sem data.

Tendo como pano de fundo a época em que a futura Inglaterra – então uma ilha dividida em cinco reinos distintos – sofria com invasões de povos escandinavos, especialmente dinamarqueses, a cada verão, a série conta a história de Uhtred Uhtredson, também chamado de Uhtred de Bebbanburg (Alexander Dreymon, da terceira temporada de American Horror Story), um homem com uma vida bastante complicada. Herdeiro natural de um grande senhor de terras, Uhtred vê seu pai, Uhtred (Matthew Macfadyen, de Ripper Street), ser assassinado em uma batalha contra os invasores nórdicos. Capturado, ele se torna escravo de um dos invasores, o chefe Viking Ragnar (Peter Gantzler), ao lado de outra menina capturada, Brida (Emily Cox, de Homeland) e, quando chega à idade adulta, é mais dinamarquês do que saxão.

The Last Kingdom battle

Tendo sido praticamente adotado por Ragnar e criado não como um escravo, mas como se fosse seu filho, Uhtred prefere a companhia dos dinamarqueses, é pagão e sonha em recuperar Bebbanburg, a fortaleza de seu pai, seu direito natural que, desde que ele fora capturado, fora usurpada por seu tio. Uma série de fatos que não devem ser revelados para não estragar surpresas faz com que Uhtred acabe cruzando o caminho de Alfred (David Dawson, de Ripper Street), rei de Wessex, que também tem um sonho: expulsar os invasores nórdicos de vez e unir os cinco reinos da ilha em um único país: a Inglaterra. Para isso, Alfred acha essencial contar com a ajuda de Uhtred que, mesmo seguindo as tradições e costumes dinamarqueses, é manipulado para lutar contra aqueles que considera seus iguais.

The Last Kingdom é uma adaptação da série de livros The Saxon Stories (No Brasil, As Crônicas Saxônicas), do escritor britânico Bernard Cornwell. A série leva justamente o nome do primeiro livro da saga de Cornwell (que, até o momento, teve oito volumes publicados por aqui, nove na Inglaterra e, segundo o próprio autor, deve render mais dois antes de seu fim) e tem causado uma certa divisão entre os fãs da obra, a exemplo de todo tipo de adaptação com esse histórico. Enquanto uns gostam do que aparece na telinha, outros criticam desde o visual de Alexander (que difere bastante daquele descrito por Cornwell nos livros), até o fato de diversas passagens do livro terem sido alteradas ou omitidas para caber no formato estabelecido pela BBC.

Polêmicas à parte, a série é mais um produto de qualidade da BBC. O elenco, que também conta com Rutger Hauer (o eterno replicante de Blade Runner) é afiado, a ambientação é bem pensada, a reconstrução histórica e a direção são bem competentes. Conspirações, batalhas campais, intriga e mesmo um pouco de sexo e nudez (censurada na versão americana, liberada na versão europeia) são ingredientes da série que pode satisfazer a vontade dos fãs desse tipo de drama. E, a exemplo da grande maioria das séries inglesas, cada temporada de The Last Kingdom é curtinha, tendo apenas oito episódios.

O veterano Hauer está lá

O veterano Hauer está lá

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Ian McKellen leva Sherlock à velhice

por Marcelo Seabra

Mr. Holmes

Em meio a tantas versões atuais de Sherlock Holmes, seria difícil imaginar que veríamos algo novo envolvendo o personagem. É aí que surge o grande Ian McKellen para viver o maior detetive de todos os tempos em seu ocaso, perto da senilidade, em um longa que inacreditavelmente passou batido do grande público. Mr. Holmes (2015) já está na programação da TV a cabo e deve ser apreciado com calma e foco, para que se tenha atenção para os detalhes de interpretação, roteiro e cenografia, tudo muito bem cuidado.

Bill Condon, depois dos dois episódios finais do novelão Crepúsculo, voltou a fazer um longa digno de nota. Para isso, trouxe McKellen, mais lembrado hoje como o Magneto sênior de X-Men, com quem trabalhou no ótimo Deuses e Monstros (Gods and Monsters, 1998), e Laura Linney, do seu Kinsey (2004) – ambos indicados a diversos prêmios por esses papéis. Coube a Jeffrey Hatcher (de A Duquesa, 2008) a adaptação do livro de Mitch Cullin, que traz Holmes já se esquecendo de fatos e pessoas, aos 93 anos, aproveitando a calma de sua aposentadoria em um sítio em um vilarejo bucólico.

Mr. Holmes boy

Enquanto passa seu tempo cuidando de abelhas, o ex-detetive tenta se lembrar de seu último caso, que o levou a se retirar da vida pública. As histórias de seu grande amigo, o falecido Dr. Watson, trouxeram a ele notoriedade, mas nem tudo era verdade. Watson gostava de celebrar o heroísmo de Holmes em suas investigações, mas uma delas fez com que ele não quisesse mais se envolver com clientes. Entre suas lembranças, Holmes ainda conta com a companhia do inteligente filho de sua governanta (vivida por Linney). O garoto (Milo Parker) suga o que pode das histórias e da vivência do amigo, e é essa amizade o cerne do filme.

Para quem espera algo na linha das encarnações de Robert Downey Jr., Benedict Cumberbatch ou mesmo Jonny Lee Miller, é bom adiantar a total falta de similaridade. Mr. Holmes contrasta o mito criado por Watson e sua literatura – que Sherlock considera barata – e a pessoa dita real, que chega a ir ao cinema assistir a um filme sobre um de seus casos. O verdadeiro Holmes teme perder sua memória e suas habilidades dedutivas, o que sempre mantinha sua mente ágil e afiada, e chega a buscar remédios naturais contra os efeitos da demência. Mas é no relacionamento com os próximos que ele vai encontrar sua salvação, e finalmente descobrir que estar certo não é sempre o melhor final.

Mr. Holmes scene

Até os mitos envelhecem

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Mistério ronda a rua Cloverfield

por Marcelo Seabra

10 Cloverfield Lane banner

Desde o incício da produção, o segredo mantido em torno de Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane, 2016) era algo aparentemente exagerado. Qual seria, afinal, o mistério que justificaria tanto cuidado? Só podemos chutar que será algo no estilo de Cloverfield (2008), longa que, além do título em comum, também traz J.J. Abrams como produtor. Mas as similaridades param nos dois nomes envolvidos, daí em diante são caminhos bem diferentes.

O Cloverfield de 2008 era feito no famigerado estilo “imagens encontradas”, e seguia um grupo de jovens tentando sobreviver ao ataque de um monstro gigantesco. Por algum motivo, um deles mantinha a câmera em punho e registrava tudo. Agora é bem diferente: com a câmera firme, o estreante Dan Trachtenberg faz um suspense que usa mais o aspecto psicológico que seu antecessor, levando a ação para um bunker. É lá que Howard mantém dois convidados, Michelle e Emmett, salvando-os de um ataque químico, nuclear ou algo que o valha. Os três começam aos trancos, com muita desconfiança no ar, até se conhecerem um pouco mais.

10 Cloverfield Lane scene

A dinâmica entre os três personagens é o que mantém a eficiência do longa. E a grande força por trás dessa receita responde por John Goodman (de Argo, 2012), um grande ator que vai de paizão a vilão em segundos, com as expressões e reações acertadas para cada momento. Mary Elizabeth Winstead (a filha de McLane em Duro de Matar) é o outro trunfo, uma atriz mais jovem que não faz feio frente ao colega veterano. Completa o trio principal John Gallagher Jr. (de The Newsroom), e a voz de Bradley Cooper (de Joy, 2015) faz uma ponta, curiosidade que muitos só notarão ao final, com o cast subindo.

A tensão em Rua Cloverfield, 10 é muito bem construída e nunca sabemos em que acreditar. O cenário, o tal bunker do paranóico Howard, ora é mostrado como um ambiente amplo, onde eles podem se sentir à vontade, ora como um quartinho opressor, o que serve bem à trama. O diretor encontra passagens para colocar bons clássicos da música – ou seria Abrams, já que isso é marca registrada dos filmes dele? E o roteiro, escrito por Josh Campbell e Matthew Stuecken, ambos praticamente novatos, e Damien Chazelle (de Whiplash, 2014), é bem amarrado, evita diálogos expositivos e nem se preocupa em explicar demais. Falar mais seria estragar alguma coisa.

Paramount Pictures Presents The Premiere of "10 Cloverfield Lane"

Diretor, produtor e elenco lançam o longa em Nova York

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Casal moderno estrela De Onde Eu Te Vejo

por Marcelo Seabra

De onde eu te vejo elenco poster

Depois de vinte anos de casados, Ana e Fábio decidem se separar. Nada traumático, como traição, apenas um desgaste tido como natural, e eles pretendem continuar amigos. Até pelo bem da filha, com quem ambos são bem apegados. Numa dessas decisões aparentemente fadadas ao fracasso, eles alugam apartamentos muito próximos, um de frente pro outro. E, obviamente, passam a controlar os passos um do outro.

Novo trabalho do diretor Luiz Villaça (da série Vizinhos), De Onde Eu Te Vejo (2016) é algo como um “pós-romance”, protagonizada por um casal maduro que já se encontra separado, apesar do amor que ainda existe entre eles. Denise Fraga, esposa e parceira habitual de Villaça (como no quadro Retrato Falado), vive Ana, arquiteta que trabalha prospectando possíveis terrenos para futuros prédios, mas torce pela sobrevivência das casinhas velhas e suas histórias. Fábio (Domingos Montagner, de A Grande Vitória, 2014) é um jornalista que enfrenta a crise do mercado resistindo firme em seu emprego.

De onde eu te vejo elenco cena

Devido à localização dos apartamentos, eles se veem o tempo todo, e isso faz com que a separação não seja plena. Vigiar o outro é uma tentação grande, e é necessário, ao mesmo tempo, parecer bem. Chegam a ser cômicos os esforços que eles fazem para manterem as aparências. No meio dessa situação, está a filha (Manoela Aliperti, da série 3 Teresas), em vias de estudar em outra cidade e agravar o drama dos pais, que já ficam carentes de antemão. O outro personagem importante do longa é a cidade de São Paulo, umas das paixões de Villaça, que tem uma presença forte na trama e é valorizada por uma bela fotografia urbana. O elenco de apoio conta com nomes como Marisa Orth, Marcello Airoldi, Laura Cardoso, Juca de Oliveira, Fúlvio Stefanini e Laila Zaid. A maioria dos envolvidos já trabalhou junto antes, fazendo do filme um grande encontro de amigos.

Entre momentos engraçados e mais sérios, conhecemos melhor os personagens e começamos a fazer nossas apostas nas causas do fracasso da união. Seria o culpado Fábio, com seu jeito largado e idealista? Ou Ana, com suas manias e superstições? Ou seriam mesmo o cotidiano e a mesmice os grandes vilões dessa história? Villaça vem desenvolvendo a ideia há anos, em meio a outros trabalhos na TV, Cinema e no teatro, fazendo com que o projeto atingisse uma maturidade interessante antes de chegar às filmagens. Mais do que o que teria acontecido a eles, começamos a pensar para onde eles vão, o que os aguarda. E nos vemos torcendo pela felicidade de cada um.

Diretor e elenco prestigiaram a estreia paulistana

Diretor e elenco prestigiaram a estreia paulistana

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